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14/05/2002: 

A Morte e a Vitória

Cheguei em Rotterdam num domingo, cinzento, chuvoso e bem mais frio do que imaginava, depois de passar por alguns enganos durante a breve passagem por Amsterdam. Estava planejado que eu pegaria um avião depois de chegar em Amsterdam, até meu destino final: Rotterdam. Qual foi a minha surpresa quando descobri que na verdade minha passagem era de trem.

Lá fui eu com 30 quilos de bagagem pegar o tal trem. Mas não posso reclamar... durante os 45 minutos de viagem,  pude observar a paisagem e as pessoas do interior da Holanda. Os moinhos na beira da estrada são encantadores, assim como as pequenas cidades de nomes estranhos e enormes,  como também os outros passageiros do trem, indo e vindo, cada um com seu destino.

Desencontros a parte, consegui chegar sã e salva, para uma primeira semana inesquecível. Durante o passar dos dias, fui descobrindo uma cidade hospitaleira e muito calma, qua vai se revelando aos poucos. Sem muitas pessoas nas ruas, mas com muitos bares e cafés, restaurantes de diferentes lugares do mundo e um clima inconfundível que só a Europa tem. Rotterdam é uma cidade de arquitetura única, repleta de museus e com o maior porto do mundo!

Essa foi uma semana anormal para os holandeses. Na segunda-feira, 06 de maio, eles foram às ruas chorar o assassinato de um importante político. Na quarta-feira, 08 de maio, os holandeses foram as ruas de novo, dessa vez para comemorar a vitória do time de Rotterdam, que ganhou o campeonato de futebol europeu. As ruas ficaram cheias de torcedores comemorando, cantando e carregando bandeiras da Holanda. Uma cena rara de se ver em Rotterdam. A noite foi longa para eles.

Sem dúvida uma semana marcante.

O Assassinato de Pym Fortuyn

A Holanda testemunhou algo incrível essa semana: o assassinato de um importante político.  No Brasil não se tinha muita informação sobre ele até então. Para quem não acompanha as notícias internacionais, uma breve explicação: politicos direitistas têm assumido importantes posições na Europa. Foi o que aconteceu na Áustria e mais recentemente na França, com a vitória de Le Pen para o segundo turno das eleições para presidente. Pym fazia parte dessa onda de políticos de extrema-direita. Ele defendia o fim da imigração e era cético a respeito da União Européia. Detestado por muito, ele já havia sido agredido com tortas no rosto.

Pym foi assassinado com seis tiros na última segunda-feira, 06 de maio, nos arredores de Amsterdam, ao sair de uma estação de rádio depois de uma entrevista. Durante toda a semana, a população foi às ruas para manifestar seus pêsames e clamar pela democracia do país. Apesar de sua posição política polêmica, Pym foi lembrado com carinho pelos holandeses. Em frente à prefeitura de Rotterdam, ainda há bandeiras, faixas com mensagens e muitas flores. Todos os dias há pessoas visitando o local.

A repercurssão

Pym foi assassinado quinze dias antes das eleições na qual iria concorrer à Presidencia. Além de ser da extrema-direita, Pym assumiu publicamente ser homossexual e apoiou muitas das políticas liberais da Holanda, como o casamento de gays, a eutanásia e a legalidade de drogas leves. Sua morte significou um duro golpe para a politica holandesa. É possível que Pym passe a ser visto como um mártir e que políticos de extrema-direita passem a ganhar certo carisma . Inicialmente, cogitou-se adiar as eleições no país, previstas para ocorrerem dia 15 de maio, mas a idéia foi logo abandonada.

Alguns depoimentos de políticos europeus:

Karl Schweitzer, extrema direita da Austria:

“Isso é uma loucura. Sempre começa com violência verbal , a esse respeito o desarmamento será necessário de alguma forma.”

Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra:

“Estamos dividindo o mesmo sentimento de choque que existe na Holanda.”

Ad Melkert, candidato a primeiro ministro na Holanda:

“Nunca pensamos que poderia acontecer algo assim na Holanda. Um ponto falho na nossa democracia.”

Javier Solana, chefe da policia da Uniao Europeia:

“Você pode discordar com algumas idéias, mas a verdadeira democracia significa liberdade de expressão, em que todo mundo tenha o direito de expressar suas idéias.”

Imagens das homenagens fúnebres na Prefeitura:  

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(Lilian Piraine Laranja)